segunda-feira, 1 de fevereiro de 2021

Uma a cada três crianças brasileiras está com sobrepeso

 Uma a cada três crianças estão com sobrepeso

Nas últimas décadas, o Brasil reduziu significativamente a taxa de desnutrição crônica entre menores de 5 anos (de 19,6% em 1990 para 7% em 2006), atingindo, antes do prazo, a meta dos Objetivos de Desenvolvimento do Milênio (ODM). Entretanto, a desnutrição crônica ainda é um problema em grupos mais vulneráveis, como indígenas, quilombolas e ribeirinhos. De acordo com o Ministério da Saúde, em 2018, a prevalência de desnutrição crônica entre crianças indígenas menores de 5 anos era de 28,6%. Os números variam entre etnias, alcançando 79,3% das crianças ianomâmis.



Ao mesmo tempo, aumenta progressivamente o consumo de alimentos ultra processados (alimentos com baixo valor nutricional e ricos em gorduras, sódio e açúcares) e a prevalência de sobrepeso e obesidade no Brasil. Uma em cada três crianças de 5 a 9 anos possui excesso de peso, 17,1% dos adolescentes estão com sobrepeso e 8,4% são obesos. E estes números cresceram com a pandemia.

Muitas crianças e adolescentes fora da escola perderam a possibilidade de fazer a única refeição nutritiva no dia e aumentaram a quantidade de "lanchinhos". E são exatamente estes lanches que, apesar da Política Nacional de Alimentação Escolar, ainda fazem da escola um ambiente obesogênico, com lanches de baixo teor de nutrientes e alto teor de açúcar, gordura e sódio.

E muitas famílias viveram o crescimento da má alimentação na pandemia. Sem dados oficiais da Saúde, mas com a coleta de dados em pesquisas, mães relatam o aumento excessivo de guloseimas, doces e salgadinhos dentro de casa. O tédio, a falta do que fazer e a inércia abriram espaço para as gulodices e desejos desenfreados. Claramente, uma maneira de compensação que crianças e adolescentes encontraram para suprir a falta de amigos, a escola e tantos outros pontos.

"Meu filho de 2 anos passou a comer mais e acabamos liberando mais bobagens: salgadinhos, balas de goma, bolachas durante a tarde", conta Isa Martin. "Ele passou a pedir mais comida durante o dia também. Ele é filho único e está sem contato com nenhuma outra criança há mais de 3 meses. Alguns dias fica nervoso porque está dentro de casa sem poder passear. Penso que a comida é uma recompensa pelo que estamos passando".

"A minha filha almoçava e jantava na escola, sou uma negação na cozinha", fala Iris Ramirez, mãe de uma menina de 6 anos. "Está comendo pior e já dá pra ver na pele dela. Muito delivery de arroz, feijão e uma carne. Quando faço é massa, ovo e miojo". E não para por aí. Os lanches que antes eram frutas, na escola, passaram a ser pizzinha, esfiha ou kibe. E a maior parte deles, Iris compra congelado. "Já tentei aplicativos de receita, mas só gasto dinheiro e não faço nada! Sem tempo, paciência e não gosto. O Ifood tem salvo por aqui".

© Fornecido por Estadão

Rosa, filha da Iris em uma de suas refeições de quarentena

"No Brasil, como na maioria dos países da América Latina e do Caribe, crianças e adolescentes estão comendo muito pouca comida saudável e muita comida pouco saudável", afirma Florence Bauer, representante do UNICEF no Brasil. "Por causa disso, hoje há uma tripla carga de má nutrição, em que desnutrição e deficiência de micronutrientes coexistem com o sobrepeso e a obesidade, associados a doenças crônicas não transmissíveis. Temos de capacitar crianças, adolescentes e suas famílias para que exijam alimentos saudáveis e, por outro lado, exigir a regulamentação da informação nutricional dos alimentos. A UNICEF defende o direito do consumidor de saber o que está comendo por meio de uma rotulagem frontal de alimentos, no formato de triângulo, que é facilmente compreensível a crianças e adultos".

Alimentos ultra processados são mais baratos e práticos e não podemos desconsiderar a situação econômica das famílias para olhar os dados. Este é um problema sério que as autoridades precisam querer olhar. Mas existe outro fator que cabe as famílias brasileiras: a educação alimentar dentro de suas casas.

Ceder às vontades das crianças pode parecer um recurso mais fácil. Entregar o pacote de bolachas ou deixar com que troquem o almoço por um lanchinho pode aliviar a tensão momentânea da birra ou do ataque da criança. Mas a médio e longo prazo, os estragos aparecem não apenas na educação como também na saúde.

À medida que as crianças crescem, sua exposição a alimentos não saudáveis se torna alarmante, impulsionada em grande parte por marketing e publicidade inadequados, pela abundância de alimentos ultraprocessados nas cidades, mas também em áreas remotas, e pelo aumento do acesso a fast food e bebidas altamente açucaradas.

O relatório da UNICEF mostra, por exemplo, que 42% dos adolescentes em idade escolar em países de baixa e média renda consomem refrigerantes com açúcar pelo menos uma vez por dia e 46% comem fast-food pelo menos uma vez por semana. Essas taxas sobem para 62% e 49%, respectivamente, para adolescentes em países de renda alta.

Como resultado, os níveis de sobrepeso e obesidade na infância e adolescência estão aumentando em todo o mundo. De 2000 a 2016, a proporção de crianças e adolescentes com excesso de peso entre 5 e 19 anos praticamente dobrou, passando de um em dez para quase um em cinco. Dez vezes mais meninas e 12 vezes mais meninos nessa faixa etária sofrem de obesidade hoje quando comparados a 1975.

"Estamos perdendo terreno na luta pela alimentação saudável", disse Henrietta Fore, diretora executiva da UNICEF. "Essa não é uma batalha que podemos vencer por nós mesmos. Precisamos que os governos, o setor privado e a sociedade civil priorizem a nutrição de crianças e adolescentes e trabalhem juntos para abordar as causas de uma alimentação não saudável em todas as suas formas".

Para reverter este cenário, o Brasil precisa focar em políticas públicas para a prevenção do sobrepeso e da obesidade. Incentivar o aleitamento materno; a regulação do marketing para crianças (veja o Programa Criança e Consumo, do Instituto Alana); melhoria na rotulagem nutricional; e a promoção da alimentação saudável nas escolas, entre outras.

E precisa também da responsabilidade compartilhada. Cabe às famílias cuidar do que se põe à mesa. Um bebê gordinho não é sinônimo de saúde. Uma criança gordinha não é sinônimo de saúde. O sobrepeso tem consequências seríssimas pra saúde física e mental da criança e do adolescente. É preciso cuidar. Porque antes de serem crianças com sobrepeso são, apenas, crianças.

Fonte: Estadão

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