domingo, 27 de setembro de 2015

O lugar do cérebro que faz as dietas fracassarem

Se perguntar pela rua qual é o motivo da obesidade de uma pessoa, a maioria das pessoas responderá que é por comer demais, e têm razão. Mas a pergunta importante é: por que come demais?”. A pergunta foi feita por Jeffrey Friedman em uma entrevista ao EL PAÍS (leia aqui, em espanhol). Em 1994, este cientista norte-americano identificou o hormônio que nos diz quando devemos comer e quando é o momento de parar. Esse tipo de trabalho mostrou que o peso é uma característica regulada pelos genes, de um modo semelhante à estatura, e que pensar em manipulá-lo de maneira significativa a partir de dietas pode ser algo mais complicado do que uma questão de vontade e bons hábitos.
Milhões de anos de evolução nos legaram uma herança genética que busca um equilíbrio entre os riscos de morrer de fome e os inconvenientes de estar muito gordo para caçar ou fugir dos predadores. O centro do controle desse mecanismo encontra-se no cérebro, encarregado de gerir os sinais enviados pelo organismo e o entorno para nos manter com vida o maior tempo possível. Um dos mecanismos fundamentais desse sistema é a fome, um incentivo necessário para enfrentar a caça de um mamute, mas inimigo mortalem um mundo com comida por todos os lados.
Na segunda semana de maio, duas equipes independentes de cientistas publicaram dois trabalhos que tentam descobrir as redes de neurônios que geram a informação e os impulsos relacionados ao alimento.

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Um dos grupos, liderado por Bradford Lowell, pesquisador da Escola de Medicina de Harvard é um dos descobridores dos neurônios AgRP, células nervosas que detectam a falta de calorias e desencadeiam uma série de sinais que nos fazem precisar de comida. Essas moléculas têm níveis mais elevados entre as pessoas obesas e mais baixos entre as magras.
Agora, em um artigo publicado na revista Nature Neuroscience, explicam o descobrimento de um circuito que inibe e controla a vontade de comer. Esse mecanismo, regulado por uma proteína batizada como MC4R, pode ser o alvo para a criação de um remédio que ajude a controlar o apetite e a obesidade, ao reduzir o sofrimento da fome associada à dieta.
Uma vez identificados os neurônios que controlam a saciedade, situadas no hipotálamo, a região do cérebro que regula nossos mecanismos básicos de sobrevivência, os pesquisadores observaram que os sinais dessa área se comunicam com outra na parte de trás do cérebro conhecida como núcleo lateral parabraquial. Depois, os pesquisadores criaram um experimento para identificar como essas ordens são transmitidas. Realizaram isso através de um sistema que, empregando ratos modificados geneticamente, permitiu a ativação de neurônios através de um laser azul que agiu sobre um implante de fibra óptica em seu cérebro.
Com esse sistema, introduziram ratos famintos em um espaço com duas câmaras, uma normal e uma com uma luz azul que ativou o implante dos ratos modificados. Além disso, utilizaram ratos não modificados. Estes últimos não demonstraram preferência por nenhuma das duas câmaras, mas os manipulados preferiram claramente a azul, onde o laser ativou a região do cérebro relacionada com a fome e aliviou a necessidade de comer.
Os neurônios da fome são ativados quando são perdidos entre 5% e 10% do peso corporal
Agora, Lowell e sua equipe trabalham para aplicar o aprendido com essas experiências à saúde humana, ainda que reconheça que implantar fibras ópticas em humanos pode não ser a melhor solução para a obesidade. “Idealmente, esses neurônios seriam estimulados com um remédio. Agora estamos trabalhando para identificar todos os genes que manifestem os neurônios de saciedade e esperamos que manifestem algo que possa ser usado como um alvo terapêutico”, explica Lowell à Materia.
Em um trabalho que pretendia comprovar uma parte relacionada desse mecanismo, Scott Sternson, pesquisador do Instituto Médico Howard Hughes, também analisou a função dos neurônios AgRP. Segundo o pesquisador, esses interruptores da fome são ativados quando a perda de peso atinge entre 5% e 10% da massa corporal, e explicaria em parte por que no começo uma dieta pode funcionar para depois fracassar por conta de um apetite permanente que pretende nos devolver ao que considera nosso peso normal.
“Estamos estudando diferentes formas do cérebro controlar o apetite”, afirma Sternson, que publicou seu estudo na Nature. “Durante mais de 60 anos, todos os estudos neurobiológicos consentiram que a fome faz com que a comida fique mais gostosa, e isso sem dúvida é certo. Identificamos, entretanto, um grupo de neurônios diferentes que provoca a fome por outro mecanismo: produzem um sinal que causa um sentimento desagradável e os animais aprendem a comer, em parte, para acabar com esse sinal”, acrescenta. “Portanto, esses neurônios contribuem com os aspectos emocionais negativos de perder peso, seja devida à inanição, que tais neurônios evoluíram para prevenir, ou devido a uma dieta para perder peso”, conclui.
Até agora, Sternson e sua equipe, que como Lowell desenvolveram suas experiências com ratos, manipularam os neurônios da saciedade através de um vírus, de uma forma semelhante à maneira como novos genes são inseridos na terapia genética. “Isso pode ser uma forma de realizar em pessoas, mas também podemos compreender muito sobre os receptores e as enzimas manifestadas nos neurônios AgRP para desenvolver remédios que os modifiquem no futuro”, comenta.
Os dois enfoques apresentados na segunda semana de maio servirão, se puderem ser utilizados com segurança em humanos, para reduzir a ingestão excessiva de comida e, ao mesmo tempo, evitar os efeitos desagradáveis da fome causados pela dieta e que, como explicou Friedman, parece nos lembrar que nosso peso, como nossa estatura, está inscrito nos genes e não há muito que possamos fazer para mudá-lo a longo prazo.
Fonte:Minha Vida

Por que certas dietas da moda não funcionam?

“Que tipo de dieta funciona?”, é uma das buscas mais comuns no Google. Mas “funcionar” e “dieta” são conceitos que não batem, com exceção de alguns charlatões dietéticos que inventam propostas alimentares, ou divulgam uma “dieta milagre” já existente, para nos prometer um sucesso garantido e sem esforço. Suas promessas convencem milhares de pessoas por dois motivos: nossos conhecimentos em relação à nutrição são escassos, e além disso estamos pouco dispostos, em geral, a mudar nossos hábitos.

As “dietas milagre”, como são chamadas pelo Ministério da Saúde, são um risco à saúde. O pior é que alguns desses soldados da dieta definitiva, para nomeá-los de algum jeito, são nutricionistas formados e até mesmo respeitáveis médicos. São os mais perigosos. Um deles se chama Pierre Dukan. Por sorte, a Ordem dos Médicos de seu país o expulsou em janeiro de 2014, o que coincidiu com o declínio de seu império proteico.
O que aprendemos com isso? Muito pouco, a julgar pelo que revela o “Google Trends”, em relação às dietas mais buscadas na Internet. Falaremos delas daqui a pouco, mas antes, vamos estudar os conceitos “funcionar” e “dieta”.
Se entendemos por “funcionar” conseguir que a balança marque um número que alguém decidiu arbitrariamente, para que a agulha fique ali ad eternum, começamos mal. Se nos mencionarem uma perigosa construção intelectual chamada “peso ideal”, não somente estamos sendo enganados, mas colocando nossa delicada autoestima em risco. O objetivo da perda de peso não deve ser embelezar nossa estética, mas melhorar a saúde.
E o que dizer do cada vez mais desvalorizado conceito “dieta”? Na Grécia clássica, como disse Montserrat Jufresa ao jornalista Antonio Ortí em março de 2015, a “Diaita” (de onde vem o vocábulo “dieta”), se referia ao estilo de vida, a maneira de se viver. A doutora Jufresa, professora emérita de filologia grega na Universidade de Barcelona, acrescentou que os pitagóricos aplicavam a essa palavra o equilíbrio entre corpo, mente e espírito. Comer saudavelmente todos os dias, e não somente por um tempo, realizar exercícios físicos diariamente, manter uma boa relação com nossos congêneres e respeitar o meio ambiente, tudo isso significava seguir uma boa dieta. E mais, a beleza para eles não era de forma nenhuma o “peso perfeito”, tinha um sentido ético. Era impensável ser belo sendo uma pessoa ruim. Resta algo desse nobre legado? Quase nada, porque a maior parte dos habitantes desse mundo (incluindo os gregos) entendem hoje como dieta um disparatado regime de alimentação a ser seguido durante um tempo, para voltar mais tarde aos nossos (maus) hábitos anteriores.
O objetivo da perda de peso não deveria ser embelezar nossa estética, mas melhorar a saúde
Vamos então às buscas mais comuns, segundo o Google Trends, de dietas “que funcionam”. O ouro vai para a dieta alcalina, moda entre pacientes com câncer, por mais que os oncologistas façam seguidas declarações contra ela. A base científica dessa “dieta” é tão sólida quanto papel para cigarro light: teoricamente devemos seguir uma alimentação de acordo com o pH do sangue. Não vou me estender nas características dessa proposta que diz ser saudável por ser “natural”. Basta dizer que o que comemos e bebemos não altera em nada o pH, como disse em 2008 o Instituto Americano para a Pesquisa do Câncer.
A prata é da dieta Perricone, que leva o nome de um rico dermatologista americano. Como dissemos antes, quando o sobrenome de uma dieta é o de um médico formado, o perigo aumenta: o médico é uma figura de reputação inquestionável cuja quase mística autoridade exerce uma atração irresistível. É um fenômeno psicossocial que merece uma análise em separado. Em todo caso, esse dermatologista de Connecticut, de cima de seu pedestal, refere-se ao peso ideal, logo depois de nos garantir o sucesso em pouco tempo (é uma dieta de somente três dias). Inclui, também, uma lista de alimentos benéficos (basicamente, o salmão) e outra de alimentos proibidos. Além disso, o senhor Perricone nos vende caríssimos complementos alimentares para chegar ao nirvana nutricional. Suas insustentáveis promessas são falsas, mas os riscos de se confiar nelas são verdadeiros.
E a duvidosa honra do bronze vai para a dieta 5:2. Se buscá-la na Internet verá que existem vários tipos de dieta 5:2. Qual é a boa? Boa, mesmo, nenhuma. Certamente nasceu inspirada na dieta do jejum intermitente, uma proposta que parte de uma premissa tão simples como sem sentido: durante metade do tempo podemos comer o que nos der na telha, para purgar nossos pecados na outra metade à base de jejuns e verduras cruas. Tanto essa dieta como sua sucessora, a dieta 5:2, utilizam um jargão pseudocientífico que tenta nos convencer de que nada conhecemos sobre nutrição para que dessa forma fiquemos à mercê de seus divulgadores, que nos guiarão pelo caminho correto. Como foi indicado em maio de 2013 pelo NHS Choices, o maior portal de saúde do Reino Unido, essa dieta não é eficaz e não é segura. O mais sensato é ficar longe dela.
Quando a dieta leva o nome de um médico formado, o perigo aumenta
Se olharmos de perto as três propostas, podemos esboçar algumas características comuns.
1- Contém afirmações que contradizem conhecimentos científicos bem estabelecidos.
2- Não trazem provas confiáveis de eficácia e segurança baseadas em pesquisas rigorosas em seres humanos.
3- Dizem que suas propostas são válidas por serem “naturais”.
4- Prometem resultados rápidos e sem esforço.
5- Fazem listas de alimentos permitidos e proibidos.
6- É preciso consumir produtos que, coincidentemente, são fabricados pela mesma pessoa que que divulga o método.
7- Podem ser realizados sem o acompanhamento de profissionais da área da saúde (faça você mesmo”).
Como podem ver, não é preciso ter uma percepção muito aguda para detectá-las: são um insulto ao intelecto. Lembre-se: quando alguma coisa é boa demais para ser verdade, não é.
O que comemos e bebemos não altera em nada o pH do sangue
É possível que pensem que não respondi à pergunta com a qual esse texto começa. Não o fiz pois não tem resposta, e porque muitas vezes reconhecer o que não se deve fazer (é o que tentei explicar nessas linhas) é mais importante do que saber o que devemos fazer. É algo perfeitamente aplicável à nutrição humana, como demonstra o chamado “efeito sanfona”.
Você quer perder peso? Então não faça dieta. Vá ao médico (um médico de verdade, não um terapeuta alternativo), para que ele decida se você precisa perder peso e faça também uma revisão de seu estado de saúde. Depois, consulte um nutricionista reconhecido. Se for um bom profissional, não o “colocará de dieta”, mas acertará com você para que e como melhorar seus hábitos alimentares, sem esquecer a importância crucial do exercício físico. Mudar nosso estilo de vida e não fazer dieta, mas “Diaita”, aí está o milagre.
Fonte:MSN