quarta-feira, 17 de junho de 2015

Papinha saudável. Como deve ser para seu bebê?

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Introdução
    Os primeiros anos de vida de uma criança são críticos, caracterizados por alta velocidade de crescimento e intensa maturação, sendo que a nutrição exerce um papel fundamental para assegurar a sobrevivência e o crescimento adequado da criança. A qualidade e a quantidade dos alimentos consumidos são essenciais para seu desenvolvimento e têm repercussões ao longo da vida (EUCLYDES, 2005).
    Calcula-se que nos primeiros meses o ganho de peso corporal seja em média de 1 gr/hora (15 a 30 gr/dia) e o do cérebro em 2 gr/dia (PIACENTINI et al., 1995). Em geral, no primeiro ano de vida, a criança triplica seu peso e dobra sua superfície corpórea, aspectos não observados em outra fase da vida (FREEMAN; HOF, 2000).
    Pela repercussão que representa na saúde da população infantil, a alimentação do primeiro ano de vida tem sido muito discutida na literatura, já estando estabelecido e recomendado pela Organização Mundial de Saúde (OMS) que a melhor opção alimentar para crianças de 0 a 6 meses é o aleitamento materno exclusivo (WHO, 2001). Entretanto, a partir dos 6 meses de idade, é necessário adicionar alimentos complementares ao leite materno para satisfazer as necessidades nutricionais do lactente, bem como para propiciar que ele entre em contato com outros sabores e texturas. Desta forma, para crianças de 6 a 12 meses, a prática recomendada é a dieta mista: manutenção do aleitamento materno e introdução de novos alimentos (sopas e frutas) (LANDE et al., 2003).
    Visto que nesse período ocorre uma maior prevalência de desnutrição e deficiências de certos micronutrientes, e o conhecimento correto e atualizado sobre a alimentação é essencial para a avaliação e a orientação adequadas sobre a nutrição da criança, este estudo teve como objetivo realizar uma revisão sobre a alimentação complementar de crianças em aleitamento materno.
Definição de alimentação complementar
    Entende-se por alimentação complementar, quaisquer alimentos nutritivos sólidos ou líquidos, oferecidos à criança, em adição ao leite materno, após os seis meses de vida. Trata-se de alimentos preparados especialmente para a criança ou daqueles alimentos que são consumidos pela família e modificados para atender as suas necessidades nesse período, desde que sejam bem cozidos, com pouco sal e pimenta, sendo sua consistência modificada (amassada, desfiada, picada) e que esteja de acordo com a fisiologia e facilite o consumo de novos alimentos. A comida da família, oferecida à criança, além de ser modificada na consistência, pode ser modificada também pela adição de alimentos ricos em ferro, em vitamina A e de óleo para garantir o aporte desses elementos na dieta infantil (GIUGLIANI; VICTORA, 2000).
    O termo "alimentos de desmame", muito utilizado ao longo tempo, não é recomendado como sinônimo de alimentação complementar, pois sua utilização é errônea (PIWOZ; HUFFMAN; QUINN, 2003). Essa distorção de significado invalidou a real função dos alimentos complementares que é a de ser um alimento complementar ao aleitamento materno e não um substituto do mesmo, já que o aleitamento materno, após os seis meses, não mais cobre todas as necessidades nutricionais. Atualmente, o termo "desmame total" é utilizado para indicar a parada total da amamentação (WHO, 2000).
Introdução dos alimentos complementares
    As práticas de alimentação de lactentes podem ser influenciadas pelo ambiente familiar, por informações fornecidas pelos profissionais de saúde, assim como pela mídia, através da veiculação de propagandas de alimentos (MONTE; GIUGLIANI, 2004).
    A partir dos 6 meses de idade é necessária a introdução de alimentos complementares (Tabela 1). Também é a partir dessa idade que a maioria das crianças atinge um estágio de desenvolvimento geral e neurológico maior, com o desenvolvimento da mastigação, deglutição, digestão e excreção que a habilita a receber e aceitar outros alimentos, que não o leite materno (BRASIL, 2002).
Tabela 1. Esquema para introdução dos alimentos complementares
Faixa etária
Tipo de alimento
Até o 6º mês
Leite materno
No 6º mês
Leite materno e papa de frutas
Do 6º ao 7º mês
Primeira papa salgada, ovos e suco de frutas
Do 7º ao 8º mês
Segunda papa salgada
Do 9º ao 11º mês
Gradativamente passar para a comida da família
No 12º mês
Comida da família
Fonte: Adaptado de Sociedade Brasileira de Pediatria (2006).
    O leite materno contribui para o desenvolvimento da criança com um a dois terços da energia consumida no final do primeiro ano e como fonte importante de gordura, vitamina A, cálcio e riboflavina até o segundo ano de vida (ANDERSON et al., 2001).
    Algumas práticas ainda são impregnadas à cultura brasileira mostrando-se conflitivas com as recomendações para alimentação do lactente. De acordo com Almeida (2004), no Brasil, é comum a pratica de oferecer a criança água para saciar a sede; chás para acalmar, aliviar as cólicas e tratar de diferentes doenças. Essa crença de que o leite materno não é completo para suprir as necessidades da criança, tem resultado na introdução de outros tipos de leites, que não o materno, e alimentos complementares antes do tempo apropriado (MONTE; GIUGLIANI, 2004).
    Segundo Giugliani e Victora (2000), a suplementação do leite materno com água ou chás é desnecessária nos primeiros seis meses de vida da criança, mesmo em locais secos e quentes. Esta suplementação, tanto de outros alimentos como de líquidos, diminui a ingestão de leite materno, sendo desvantajoso para a criança, pois muito desses alimentos ou líquidos oferecidos à criança são menos nutritivos e com densidade energética menor que o leite humano, interferindo na biodisponibilidade de nutrientes do leite materno, como o ferro e o zinco (DEWEY et al., 2001).
    Pesquisas comprovaram que a introdução precoce de alimentos complementares antes dos seis meses de vida pode aumentar a morbimortalidade infantil como consequência de um menor consumo de fatores de proteção encontrados no leite humano, além desses alimentos serem uma fonte importante de contaminação para as crianças (DEWEY et al., 2001). Além dessas considerações, a introdução precoce dos alimentos complementares pode interferir na duração da amamentação, na redução da eficácia da lactação e na prevenção de uma nova gravidez (ALMEIDA, 2004).
    A introdução precoce de alimentos complementares tem sido associado com o desenvolvimento de doenças atópicas. O aleitamento materno exclusivo reduz o risco de asma, e esse efeito protetor parece persistir pelo menos durante a primeira década de vida, sendo particularmente evidente em crianças com história familiar de doenças atópicas (ODJIK et al., 2003). A amamentação exclusiva pode proteger contra o aparecimento do diabetes melito tipo I. A exposição precoce ao leite de vaca (antes dos 4 meses) pode ser um determinante dessa doença e pode aumentar seu risco de aparecimento em 50%. Estima-se que 30% dos casos de diabetes melito tipo I poderiam ser evitados se 90% das crianças até 3 meses não recebessem leite de vaca (GERSTEIN, 1994).
    O leite de vaca integral não é recomendado no primeiro ano de vida, pois pode causar alergia alimentar. Alimentos como ovo, amendoim, nozes e peixe também devem ser evitados. Já no caso do mel, a recomendação de evitar o seu uso em menores de 12 meses visa à prevenção de botulismo (DEWEY et al., 2001).
    Os malefícios da introdução de alimentos complementares antes dos seis meses ultrapassam, em muito, qualquer benefício em potencial desta prática. Entretanto, quando iniciado tardiamente, o crescimento da criança pára ou se lentifica, e o risco de desnutrição e de deficiência de micronutrientes aumenta. Nesse sentido ações educativas dirigidos ao primeiro ano de vida da criança devem merecer atenção especial, para promover e manter o estado nutricional adequado, o que pode refletir sobre sua saúde (BRASIL, 2002).
A escolha dos alimentos complementares
    Preparações que não atinjam a densidade mínima recomendada de energia, tais como sopas, mingaus e leites muito diluídos devem ser evitados (BRASIL, 2002).
    De acordo com a Sociedade Brasileira de Pediatria (2006), as frutas devem ser oferecidas, preferencialmente sob a forma de papas e sucos, sempre em colheradas. Os sucos naturais devem ser usados após as refeições principais, e não em substituição a estas, numa dose máxima de 240 mL/dia (copo americano).
    A papa salgada deve ser planejada seguindo a regra 3:1:1:1. Os alimentos na mistura devem seguir a proporção: para cada 3 partes do alimento base (cereal, raíz ou tubérculo), colocar 1 parte de alimento protéico (origem animal), 1 de origem vegetal (leguminosas) e 1 parte dos outros alimentos (hortaliças) (Tabela 2) (SOCIEDADE BRASILEIRA DE PEDIATRIA, 2006).
Tabela 2. Componentes da mistura
Cereal ou +
Tubérculo
Leguminosa +
Proteína +
animal
Hortaliça
Arroz
Milho
Macarrão
Batata
Mandioca
Inhame
Cará
Feijão
Soja
Ervilha
Lentilha
Grão-de-bico
Carne de boi
Vísceras
Frango
Ovos
Peixe
Legumes
Verduras
Fonte: Adaptado de Sociedade Brasileira de Pediatria (2006).
    Recomenda-se que os alimentos sejam oferecidos separadamente para que a criança identifique os vários sabores. A papa deve ser amassada, sem peneirar nem liquefazer. Não se deve retirar a carne, assim como as fibras (VITOLO, 2003).
    Na tentativa de melhorar a aceitação do lactente aos novos alimentos, não se deve acrescentar açúcar ou leite nas papas, o que prejudica a adaptação da criança às modificações de sabor e consistência das dietas. É importante dar água potável, pois os alimentos oferecidos ao lactente apresentam maior sobrecarga de solutos para os rins (SOCIEDADE BRASILEIRA DE PEDIATRIA, 2006).
    Deve-se assegurar a oferta, se possível diária, de alimentos de origem animal ricos em ferro e de frutas e vegetais, particularmente os ricos em vitamina A (WHO, 2001). Dietas vegetarianas não fortificadas ou não suplementadas não são recomendadas para crianças menores de 2 anos, pois não suprem as necessidades de alguns nutrientes, como ferro, zinco e cálcio (WHO, 2000).
    Além disso, não recomenda-se oferecer leite de vaca não modificado, principalmente quando cru e puro, a menores de um (01) ano porque o seu uso está associado a perda sangüínea fecal e deficiência de ferro. Deve-se evitar também dar bebidas açucaradas (refrigerantes e outras), pois elas diminuem o apetite da criança para alimentos mais nutritivos e podem causar fezes amolecidas. Chá e café também são desaconselháveis, pois podem interferir na absorção de ferro (BRASIL, 2002).
Como oferecer os alimentos complementares
    A introdução dos novos alimentos deve ser gradual, um de cada vez, a cada 3 a 7 dias. É comum a criança rejeitar novos alimentos, não devendo este fato ser interpretado como uma aversão permanente da criança ao alimento. Em média, a criança precisa ser exposta a um novo alimento de oito a 10 vezes para que o aceite bem (NORTHSTONE; EMMETT; NETHERSOLE, 2001). Crianças amamentadas podem aceitar mais facilmente novos alimentos que as não-amamentadas, pois, por intermédio do leite materno, a criança é exposta precocemente a diversos sabores e aromas, que variam de acordo com a dieta da mãe. Assim, a criança é introduzida desde o nascimento aos hábitos alimentares da família (VENÂNCIO et al., 2002).
    A consistência da dieta deve ser aumentada gradativamente, respeitando-se as habilidades da criança (BRASIL, 2002). A partir dos 8 meses, a criança pode receber os alimentos consumidos pela família, desde que amassados, desfiados, picados ou cortados em pedaços pequenos. Aos 10 meses, a criança já deve estar recebendo alimentos granulosos, caso contrário corre um risco maior de apresentar dificuldades alimentares aos 15 meses (NORTHSTONE; EMMETT; NETHERSOLE, 2001). Aos 12 meses, a maioria das crianças pode receber o mesmo tipo de alimento consumido pela família, desde que com densidade energética e consistência adequadas (DEWEY et al., 2001). A partir de então, deve-se restringir o uso de alimentos semi-sólidos e deve-se evitar alimentos de consistência dura, como cenoura crua e uva, pelo risco de engasgar a criança (BROWN; DEWEY, 2003).
    Os alimentos complementares devem ser oferecidos à criança utilizando-se colher e copo. Mamadeiras devem ser evitadas pois, além de ser uma fonte de contaminação para a criança, prejudicam a dinâmica oral e expõem a um risco maior de desmame precoce. Os alimentos complementares podem ser oferecidos antes como após a mamada no seio (BRASIL, 2002).
    A pequena quantidade de alimentos complementares inicialmente oferecida deve ser gradativamente aumentada com a idade da criança. Deve-se encorajar a criança a comer até ela ficar saciada (GIUGLIANI; VICTORA, 2000).
    A OMS recomenda, para as crianças amamentadas, duas a três refeições com alimentos complementares por dia dos 6 aos 8 meses de idade e três a quatro vezes por dia dos 9 aos 24 meses, com lanches nutritivos adicionais, como bolo de frutas, uma a duas vezes ao dia a partir dos 12 meses (GIUGLIANI; VICTORA, 2000). Se a densidade de energia ou a quantidade de alimentos complementares por refeição for baixa, ou se a criança estiver totalmente desmamada, pode ser necessária uma maior freqüência de refeições (BRASIL, 2002).
    As refeições com alimentos complementares não substituem as mamadas. A freqüência das mamadas ao seio pode ser mantida. Com a introdução da alimentação complementar, a criança naturalmente passará a ingerir menos leite materno. Por isso, deve-se evitar um número excessivo de refeições com alimentos complementares em crianças amamentadas, para não diminuir demasiadamente o volume de leite materno ingerido pela criança (VITOLO, 2003).
Considerações finais
    A alimentação complementar adequada da criança amamentada torna-se um componente essencial para a segurança alimentar e nutricional. Verifica-se anecessidade de intervenção e aconselhamento em alimentação infantil por parte dos profissionais da saúde, considerando que a maioria das crianças inicia a alimentação complementar de forma inadequada, podendo repercutir negativamente sobre a sua saúde.

Fonte: Efdeportes.com

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