sábado, 15 de junho de 2013

Obesidade e saúde mental: existe uma relação?


Ser obeso significa necessariamente ser depressivo ou ter alguma compulsão pela comida? E a cirurgia da obesidade seria capaz de acabar com os problemas emocionais do paciente?


Estes dilemas foram abordados pelo painel Saúde Mental e Obesidade,realizado durante o XV Congresso de Obesidade de Síndrome Metabólica, realizado pela Abeso entre 30 de maio e 1º de junho, em Curitiba (PR).

Para o psiquiatra Arthur Kaufman, em geral os obesos possuem personalidade negativa, poucas noções alimentares e só conhecem dietas restritivas para perder peso de maneira cíclica.

“Ser gordo pode significar o cultivo do símbolo visual dos fracassos físicos e psicológicos do paciente. Isso não é uma regra, mas é facilmente identificado em pacientes que lutam contra a balança”, resumiu o especialista.Segundo ele, é preciso propor um tratamento integral ao indivíduo, no qual a atividade física possui efeito antidepressivo. “Fazer um diário de recordatório alimentar pode ser eficaz também. No qual o paciente registra o dia, o que comeu,a hora, se estava sozinho ou acompanhado, como se sentiu quando estava comendo determinado alimento, o que o leva a comer ou beber, e o que pensa enquanto come e bebe”, explica o psiquiatra, que é membro da Abeso. A psicoterapia,segundo ele, também pode ser uma forma de encontrar um novo estilo de vida,tendo em vista as inúmeras implicações emocionais que giram em torno da obesidade.

Inúmeros obesos apostam suas fichas na cirurgia bariátrica para a cura de seus males. Acreditam que a obesidade é seu maior problema, e que a cirurgia será eficaz no emagrecimento. Para a doutora em endocrinologia e metabologia pela FMUSP e membro da Abeso, Claudia Cozer, existe um grande conflito na literatura médica a respeito dos resultados da cirurgia bariátrica. Claudia,que também é coordenadora do Núcleo de Obesidade e Transtorno Alimentar do Hospital Sírio Libanês, afirmou que os pacientes possuem um “fenótipo” muito diversificado e que, portanto, o resultado não é o mesmo para todos.

“É preciso levar em conta diagnósticos de compulsão, por exemplo, de preferência antes da cirurgia. Quando falamos em compulsão, precisamos classificar. É muito difícil no pós-operatório saber se o paciente continua compulsivo, porque ele não consegue mais comer como antes. Os critérios se tornam diferentes, e alguns pacientes se tornam o que chamamos de´beliscadores´”, afirmou.

Segundo ela, cerca de 30% dos pacientes obesos mórbidos apresentam compulsão. Após a cirurgia bariátrica, entre 30 e 50% continuam apresentando  compulsão, o que contribui para a falha na perda de peso.

Também é comum, segundo ela, que os pacientes desviem sua antiga compulsão por comida  para a bebida, ou para o consumo de analgésicos e psicotrópicos. “Sabe-se, por exemplo, que obesos, assim como dependentes químicos, possuem falha no receptor de dopamina no cérebro”, afirmou a médica.Esses pacientes buscam na comida o aumento da sensação dopaminérgica, conhecidona literatura como “circuito de recompensa”. Pessoas que possuem um polimorfismo nos genes responsáveis por este circuito não conseguem equilibrara sensação da dopamina, ficando com o circuito cego. “Por isso, a obesidade pode funcionar como um fator de proteção para outras dependências. Há pacientes que emagreceram com a cirurgia, e passaram a beber”, resumiu.

Segundo Claudia, a comida é muito mais acessível e aceitável na sociedade. Uma vez que a pessoa se priva de comer, vai buscar outras substâncias, até mesmo ilícitas.

O psiquiatra Adriano Segall concordou com a colega, afirmando que os transtornos de humor são muito comuns em grupos de obesidade. “Além disso, a obesidade está associada a depressão em homens e mulheres”.

“Estamos no começo do caminho mais científico sobre a obesidade, e começando a estabelecer relações entre a obesidade e os transtornos psiquiátricos”, disse.

Segall ainda afirmou que a última edição do Manual Diagnóstico e Estatístico das Doenças Mentais, lançada recentemente, traz um novo transtorno,chamado Transtorno da Compulsão Alimentar Periódica (TCAP). “E sabe-se que 25 a 30% dos pacientes obesos apresentam o TCAP”. Mais ainda: cerca de 60% dos pacientes obesos sofrem de algum distúrbio psiquiátrico.

Nesses pacientes, o tratamento da obesidade pode ser um complicador, já que todos os principais agentes efetivos para tratar doenças psiquiátricas levam ao aumento de peso, segundo Segall. “Por isso a cirurgia bariátrica tem sido associada a melhora dos transtornos, mas não dá para generalizar”.
Texto: Aline Moura, especial para o site da Abeso (cobertura do CBOSM 2013).

Fonte: ABESO

Nenhum comentário:

Postar um comentário