sábado, 4 de fevereiro de 2012

Autoajuda alimentar

Autoajuda alimentar

Em “Women Food and God”, a escritora Geneen Roth conta como a relação com a comida está ligada a sentimentos não

  • Em “Women Food and God”, a escritora Geneen Roth conta como a relação com a comida está ligada a sentimentos não revelados .
 

Foto: Reprodução
"Women Food and God" liga comida com as emoções deixadas de lado
Parece que os livros que misturam autoajuda e comida estão mesmo em alta. Na França, Stéphane Clerget fez sucesso com o "Les Kilos émotionnels", que liga a influência das nossas emoções no ganho de peso. Nos Estados Unidos, a estrela do gênero é a escritora-guru Geneen Roth, autora de oito livros que variam sobre o mesmo tema: desvios alimentares revelam problemas emocionais sérios.

O mais novo deles, "Women, Food and God – An Unexpected Path to Almost Everything”, lançado  nos Estados Unidos, e já campeão na lista de Bestsellers do New York Times, bate na mesma tecla: a compulsão por comer menos ou comer mais é gerada por sentimentos distintos – que não a fome.

Desde a adolescência, Geneen Roth ganhou e perdeu muitos quilos, oscilando durante anos entre a obesidade e a magreza. Nesta época, ela odiava quase tudo sobre si mesma e acreditava que o seu corpo era o seu principal inimigo. A autora, que já fez sucesso com "When Food is Love", afirma que o modo como lidamos com a comida está relacionado às nossas crenças sobre a vida. Para ela, mesmo que algumas pessoas tenham em mente que o que as faz engordar é a maneira como se sentem, ansiosas ou deprimidas, por exemplo, é preciso ir mais a fundo ao que realmente está fazendo com que você coma mais ou menos do que deveria. A questão colocada e respondida por ela é: ‘Se a maneira como você se alimenta não é o principal problema, então, o que você está tentando evitar ao voltar-se para a comida?’

Em entrevista dada à Oprah Winfrey, Roth conta que muitas pessoas a procuram para livrar-se dos quilos a mais da maneira rápida. Para ela, porém, este não é o melhor caminho: “A menos que você realmente veja o que está te fazendo comer mais do que o ideal, seja acreditar que ‘o amor não é para mim’ ou ‘eu não mereço isso’, estas crenças continuarão a moldar a sua vida”.

Segundo a escritora, ao invés de se torturar para entrar em uma calça dois números menor, é preciso entender o que acontece dentro de si mesmo. Em trecho do livro, a autora afirma que: “Quando começamos a nos definir por aquilo que pode ser medido ou pesado, algo profundo dentro de nós se rebela”. Para que isso não aconteça, ela explica que todos os sentimentos devem ser bem-vindos e tratados com ternura, por mais que tenhamos vontade de dissolvê-los por meio da hiperalimentação.
Foto: Reprodução
Geneen Roth, autora de "Women Food and God”, guru da autoajuda alimentar
De acordo com Maria Marta Ferreira, psicóloga clínica e autora do livro “Psicologia do Emagrecimento” (Editora Revinter), de Curitiba, Paraná, essa compulsão por comida pode ter origem desde nossos primeiros dias de vida. “Primeiramente, nos alimentamos no seio de nossa mãe. Depois, muitas vezes os pais nos presenteiam com algum doce ou salgado, somos recompensados por algo que fizemos de bom. Ainda, a maioria das interações sociais está ligada à comida, então é comum que mais tarde, diante de situações angustiantes ou frustrações, busquemos a comida como um anestésico”, afirma Ferreira.

Quando comer se torna um vício
Muitas pessoas tentam nutrir um vazio na vida com a comida. "E o pior é que isso não vai trazer uma solução e gera outros problemas, como o sobrepeso”. Além disso, um recente estudo publicado na semana passada revelou que os mecanismos do corpo que provocam vício em drogas são os mesmos que geram a compulsão por comer alimentos calóricos, tornando ainda mais difícil se livrar da compulsão alimentar.

Segundo a autora de “Women Food and God”, quando você come sem estar com fome, você acaba usando a comida como uma droga, para se livrar dos sentimentos que te trazem incômodo. No entanto, você só estará criando um problema secundário, um vício que pode ser a comida, mas também o álcool, o trabalho, o sexo ou a cocaína, por exemplo. No entanto, Roth afirma que ao chegar neste ponto, não é a alimentação o que você mais preza: é a inconsciência do acontece na sua vida.

A resposta não está na balança
Roth procura dar a saída para não usar a comida como uma válvula de escape e ir atrás do principal mal-estar. “Nós pensamos que somos infelizes por causa do quanto pesamos. Mas se passamos os últimos cinco, 20 ou 50 anos insistindo em emagrecer os mesmos cinco ou dez quilos, há outra coisa muita errada. Algo que não tem nada a ver com peso”, escreve.

Reconhecer este problema é o início para deixar a vida mais equilibrada. Roth ainda afirma que há o costume de acreditarmos que as dietas que realizamos não mudarão apenas nosso corpo, mas também nossa vida. E assim, nós fazemos um sacrifício enorme para sermos melhores. No entanto, não dá certo. Ferreira explica que é preciso tirar da mente que se fizermos uma dieta maluca ficará tudo acertado. “Isso não adianta, a alimentação é como uma teia de aranha e está relacionada a todas as áreas de nossa vida”, explica.

Embora pareça difícil, Roth afirma que a relação que temos com a comida, por mais conflituosa que seja, é a porta para a liberdade. Em seu site pessoal, http://www.geneenroth.com/, ela explica que, ao analisarmos o que comemos – e o tanto que comemos - diariamente, desmistificamos a necessidade da perda de peso e chegamos à revelação pessoal que tanto afugentávamos por meio da hiperalimentação. 

Fonte: IG
 

“Fatorexia”: o gordo que se enxerga magro

Sara Bird: britânica inventa o termo "fatorexia" e quer que distúrbio seja reconhecido.


Acostumada a se olhar no espelho e ver uma pessoa de peso ideal, a britânica Sara Bird, de 44 anos, descobriu há cinco anos que seu corpo não era exatamente como acreditava: numa visita ao médico, ela se assustou com a revelação de que estava obesa, pesando 30 quilos a mais do que imaginava. Sem saber como não havia percebido o tamanho real do seu corpo, ela resolveu nomear esta espécie de anorexia reversa como “fatorexia” (na tradução literal, “gordorexia”).

Em março deste ano, Bird lançou no Reino Unido o livro chamado “Fatorexia: What Do You See When You Look In The Mirror?” (na tradução literal para o português, “Gordorexia: O que Você Vê Quando se Olha no Espelho?”), em que conta sobre o seu suposto transtorno alimentar. “Quando eu me olhava no espelho, via uma pessoa confiante e magra, mas, na verdade, estava obesa”, conta a britânica em seu site . Antes de perceber que estava longe do peso ideal, Bird conta que costumava cortar as etiquetas de tamanho grande das roupas e fingia que não se alimentava excessivamente.

Quando subiu na balança e foi diagnosticada como obesa pelo médico, ela começou a correr atrás de informações que revelassem mais sobre a “fatorexia”. Bird iniciou, então, uma pesquisa de campo e encontrou outros indivíduos que passavam pelo mesmo sofrimento. “Concluí que, uma vez que você perdeu peso três ou quatro vezes na vida, você acaba ganhando mais peso no final de cada ciclo de emagrecimento. Neste momento, embora você continue gordo, acha que está magro e apresenta as características de uma anorexia invertida”, explicou ao site britânico DailyMail.co.uk.

Além de querer esclarecer a outros possíveis “gordoréxicos” sobre a suposta existência de tal distúrbio alimentar, Bird busca o reconhecimento médico do problema. Para Fábio Salzano, psiquiatra do Ambulatório de Transtornos Alimentares do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas, em São Paulo, pode ser que o distúrbio de Bird já seja reconhecido. “Indivíduos com Transtorno da Compulsão Alimentar Periódica (TCAP), que comem exageradamente sem tomar medidas compensatórias – como vômitos autoinduzidos –, normalmente são obesos e não se dão conta disso”, explica. Segundo Salzano, as vítimas deste transtorno comem muito, mas não percebem que ingerem uma qualidade anormal de alimento.

No entanto, não é que as pessoas com TCAP se veem magras a ponto de acharem que pesam 40 quilos quando pesam 90. De acordo com Salzano, as vítimas deste problema não se acham tão gordas quanto são e acreditam que pesam de 20 a 30 quilos menos do que pesam na realidade. Ele explica que existem diversas maneiras de avaliar a imagem corporal, e o caso de Bird também pode ser o de uma extrema distorção da imagem. “O número de pacientes com este problema não é grande, mas existem pessoas que tendem a minimizar a situação e não se acham tão obesas quanto são”, afirma.

Para Bird, descobrir que você é um “gordoréxico”, como ela apelidou o distúrbio, pode mudar sua vida. “Não porque existe uma fórmula contra isso, mas porque o reconhecimento desta condição pode prevenir o ganho de peso excessivo”, explicou ao Daily Mail.

Fonte: IG

Gordofobia

A dura vida de quem sofre preconceito por ser gordo.



No segundo andar dos fundos de uma igreja dos Jardins, região nobre de São Paulo, uma mulher de cerca de 40 anos dá início, sem atraso e para um público pequeno, a segunda reunião de 2012 dos Comedores Compulsivos Anônimos (CCA). Depois de vinte minutos, as dez cadeiras dispostas em meio círculo na sala já estão ocupadas.

Alguns ali têm peso normal, outros sofrem de obesidade. São uma pequena mostra dos quase 30% dos adultos brasileiros (12,4% dos homens e 16,9% das mulheres), segundo dados de 2009 do IBGE, que têm a doença, provocada por um complexo conjunto de fatores.

Sonia* é uma delas. Na hora em que é convidada a falar, ela levanta e conta que uma depressão profunda, depois que perdeu os pais, a fez engordar muito mais, e em pouco tempo, e que o excesso de peso tem prejudicado todas as suas tentativas de conseguir emprego.

“Minha vida andou para trás”, ela diz.

A obesidade é uma doença multifatorial caracterizada pelo excesso de gordura no corpo – 30% nas mulheres e 20% nos homens. Estes fatores podem ser genéticos, biológicos (alterações metabólicas), ambientais, evolutivos e comportamentais.

“Ainda que com menos intensidade do que se imagina, os fatores psicológicos ou psiquiátricos aparecem na maioria dos casos”, esclarece Adriano Segal, psiquiatra do Ambulatório de Obesidade e Síndrome Metabólica do Hospital das Clínicas da Universidade de São Paulo e diretor do Departamento de Psiquiatria e Transtornos Alimentares da ABESO (Associação Brasileira para o Estudo da obesidade e Síndrome Metabólica).



Autocontrole é contagioso, dizem estudos.
Metade dos paulistanos e cariocas não se casaria com obeso
Sónia* continua sua história. Conta que um primo se mudou para a casa onde vivia com os pais e passou a agredi-la verbalmente. Em pouco tempo, a convivência tornou-se insuportável. Dentro de casa, era chamada de gorda, de inútil. Na rua, idem.

“Levei todos os meus problema para a comida”.

Endividou-se no cartão de crédito por conta de gastos com padaria e supermercado. A questão financeira virou uma bola de neve. Retornava à irmandade depois de dois anos afastada. Estava no limite.

“Sei que nasci com a estrela que não brilha, não casei nem tive filhos. Mas quero parar de sofrer”. Espera que, agora que conseguiu voltar a frequentar o grupo, as coisas comecem a mudar.

“O estigma e o preconceito aos quais indivíduos com excesso de peso são expostos são fortes fatores de estresse”, acrescenta Segal. “E isso vem acontecendo cada vez mais intensamente e em relação a pessoas cada vez menos obesas”, acrescenta.

Fatores de estresse podem desencadear quadros psiquiátricos variados, de acordo com a suscetibilidade individual. Estados depressivos, ansiosos, além de transtornos alimentares estão entre os mais freqüentemente associados ao excesso de peso.

Autora de “Obesidade: o peso da exclusão” (EDIPUCRS, 2002 ), a professora da Fundação Universidade Federal das Ciências da Saúde de Porto Alegre (UFCSPA), Lúcia Marques Stenzel, explica a lógica da discriminação.

“Quanto mais rejeitamos a obesidade e idolatramos a magreza mais produzimos problemas relacionados à alimentação, incluindo a própria obesidade”.

E acrescenta: “o obeso, além de discriminado pela sua condição física, é cobrado para que ‘se transforme’ para que se adapte aos padrões estéticos”.

Nas redes sociais, a discriminação tem até nome: “gordofobia”.

Tábata Vieira, atriz e promotora de eventos de 29 anos, não é uma comedora complusiva, como Sonia *. Seu problema são outros transtornos alimentares. Durante toda a adolescência, sofreu de ansiedade e anorexia. Aos 12 anos, começou a fazer qualquer dieta que aparecesse na frente.

“Eu tive um ‘estado’ magra, porém nunca soube que eu era magra, nunca me senti magra. Chegou aos 55 quilos, com 1,77 de altura. Ainda assim se sentia gorda. Um dia, uma amiga, que ela considerava bem magra, experimentou e não coube em uma calça que Tábata vestia facilmente.

“A partir daí fiquei com medo de engordar e de emagrecer”.

Esse medo é considerado pelos médicos não exatamente uma doença, trata-se de uma fobia, que se caracteriza pelo medo desproporcional de ganhar peso. “O indivíduo reconhece o exagero dos sintomas, mas não consegue, na maioria das vezes, enfrentá-los”, explica Segal.

Além de toda pressão interna, Tábata também sofreu com cobranças externas, principalmente em casa. Mesmo sendo de uma família com histórico de sobrepeso, a promotora de eventos enfrentou preconceito dentro da própria família.

“Meu pai sempre criticou muito a gente [ela e o irmão], não queria que fôssemos gordos. Me chamava de ‘sua gorda’ ”. Quando emagreceu, no entanto, as provocações não desapareceram, apenas o tema da crítica mudou e passou a ser sua magreza exagerada.

Hoje, pesando 115 quilos, ela sabe que não está no peso ideal e vive em luta constante contra a balança, mas está mais tranquila com sua autoimagem. No entanto, sofre ainda para conseguir emprego na sua área.

“Não chamam [ as agências] porque na ficha que dão para você preencher a primeira coisa que perguntam é seu peso, altura e medidas.”.

Uma pesquisa da empresa de recrutamento Catho Online com profissionais de alta gerência apontou que, dos 16 mil entrevistados, 59,1% admitiram ter algum tipo de objeção na hora de contratar funcionários obesos. E cada ponto a mais no Índice de Massa Corporal (IMC), que determina o equilíbrio entre peso e altura, representa R$ 92 a menos no salário, em relação aos salários de colegas mais magros.

O preconceito não discrimina nem mesmo quem, apesar de obeso, está em paz com o próprio corpo.
Simone Fiúza trabalhava na área de marketing de uma rede de hotéis e foi demitida. Resolveu aproveitar a oportunidade e mudar sua vida. “Desde criança queria ser modelo, mas as pessoas riam quando contava”. Ela apostou e ganhou: tornou-se modelo plus size.

Simone tem 25, é modelo, sempre usou as roupas que quis, não tem qualquer problema de saúde – relacionado ao peso ou outro - faz exercícios físicos regularmente, drenagem linfática e cuida a alimentação. É linda, loira e de bem consigo mesma. Mas isso não a impediu de passar por situações discriminatórias.

Uma vez tentou ser Miss ABC. Como no regulamento não havia nenhuma restrição relacionada a medidas, tentou se inscrever no concurso, mas não conseguiu. Questionou a organização, não teve resposta. No ano seguinte, o regulamento foi modificado e uma série de informações sobre o manequim e as medidas máximas permitidas para os participantes foram incluídas.

Em outra situação, Simone teve de recorrer à policia e fazer um boletim de ocorrência. Entrou em uma loja para comprar uma blusa. “Não tem nada para você”, disparou, logo de cara, a vendedora. Pediu para falar com a gerente, que riu da sua situação. Simone não teve dúvidas, ‘catou’ um PM na rua, fez queixa e registrou um B.O. “No mínimo, elas vão pensar duas vezes antes de fazer isso de novo com alguém”
Atitudes pontuais como a de Simone ajudam desatar um ou outro nó desta trama chamada preconceito e discriminação.

Ações coletivas também. A eleição da musa da Escola de Samba do Rio Salgueiro é uma delas. Com 104 quilos, Vânis Flores vai desfilar à frente da agremiação.

“Está sendo maravilhoso. Quero mostrar para as pessoas que não é verdade que uma musa tem que ser magra”. Moradora do Jacaré, Vânia trabalha na área administrativa de uma escola. Foi descoberta durante um churrasco na quadra da Salgueiro.

A musa garante que nunca sofreu por causa de discriminação.

“Não presto muita atenção naquilo que as pessoas falam. Se aconteceu, nem percebi. Nunca liguei”.
Fora os tratamentos de beleza que recebeu da escola de samba, ela diz que não mudou sua rotina com a aproximação do carnaval. “Como, bebo, durmo, transo, tudo normal”.

que aconteceu neste fim de semana em São Paulo é outra mulher bela e acima do peso. No caso dela, a crítica e o preconceito vêm de dentro. Cléo acaba de ganhar o título de a mais bela gordinha do País e admite que nunca sofreu discriminação por parte dos outros. “Eu mesma me discrimino”, ela revela.

Estudante de Educação Física, ela diz que não esperava ganhar o concurso, mas que o resultado “faz parte de uma mudança necessária: parar de sofrer, aceitar-se e ser feliz”.

Fonte: IG