sexta-feira, 1 de julho de 2011

Um novo desenho contra a obesidade


EUA trocam a pirâmide alimentar pela representação de um prato. No Brasil, nutricionistas defendem que o paliativo pode funcionar

Michelle apresenta nova proposta nutricional no Departamento de Agricultura, em Washington
Não entendeu? Quer que eu desenhe? As duas perguntas podem ser usadas sem conotação pejorativa dentro dos consultórios de nutrição. Se os especialistas da área abraçarem a causa da primeira-dama Michele Obama, traduzir com canetinha e papel o modelo de alimentação saudável será ainda mais fácil.

Para combater um problema crônico na sociedade americana, o governo propôs recentemente a substituição da pirâmide alimentar pelo desenho de um prato colorido, dividido em quatro partes desiguais. Nele, a refeição deve incluir legumes, vegetais e grãos em grande quantidade, além de proteínas e frutas . Fora do prato, um copo de leite garante a quantia necessária de cálcio.

A proposta, segundo a primeira-dama, é facilitar o entendimento das pessoas e tornar o modelo mais acessível. No Brasil, tal medida foi vista com bons olhos por especialistas na área. Embora não acreditem no poder reformador de um desenho, a maioria deles defende que o paliativo, se adaptado a realidade alimentar tupiniquim, pode funcionar.

“A facilidade de compreensão com o prato será certamente mais acessível. O prato é um instrumento do dia a dia. Todo mundo come no prato. É mais fácil tê-lo como base e reproduzir", acredita Raquel Pimentel, nutricionista da consultoria Educa&Nutri.

Antes de incorporar a metodologia, porém, é preciso impor algumas mudanças na proposta americana. O ideal, segundo ela, é trocar o leite indicado no modelo por um copo de água e beber apenas no intervalo entre as refeições, nunca durante.

“Na nossa alimentação, o leite já está presente no café da manhã. Além disso, a base brasileira é o arroz com feijão, combinação riquíssima em ferro. O consumo de cálcio durante a refeição pode prejudicar a absorção do ferro. Ingerir bebidas durante a refeição também não é a orientação mais indicada, pois pode atrapalhar o processo digestivo.”

Público X privado

Mesmo com as adaptações necessárias, dentro dos consultórios particulares o desenho pode vir a somar, mas não é ferramenta fundamental, explica a especialista. Para ela, o trabalho do nutricionista deve ser sempre individualizado."Não existem recortes universais de peso, medidas e calorias. Cada organismo requer uma dieta específica."

Raquel revela que pretende usar tal simbologia no atendimento à populações mais carentes. Na visão da dela, o desenho do prato é pedagógico principalmente no trato com famílias menos escolarizadas, que pouco sabem sobre alimentação saudável e têm mais dificuldade para colocar em prática na rotina as recomendações dos médicos, entender o valor das porções.

“É possível comer bem independente da classe social e do poder aquisitivo. Infelizmente, no Brasil, há pouquíssimos programas de educação alimentar.”

A nutricionista aponta que o guia alimentar da população brasileira, feito pelo Ministério da Saúde, também é uma fonte de referência. Apesar de bem-feito, a apresentação em logos textos o torna difícil de incorporar, assim como a pirâmide alimentar.

“O modelo da pirâmide está ultrapassado. A ideia e o conteúdo são mantidos, mas de uma forma didática, mais interessante, adaptável. Entretanto, não podemos acreditar que tais modelos vão esclarecer e deixar a população ciente das necessidades nutricionais. São apenas paliativos que devem ajudar.”

Muito pouco ou quase nada?

Uma réplica da pirâmide alimentar, feita de acrílico, com miniatura de alimentos no seu interior foi utilizada durante longos anos no atendimento aos adolescentes no ambulatório de obesidade da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp).


A entidade segue as orientações estabelecidas pelo CDC – Center Disease Control – instituição americana aliada à primeira-dama dos EUA no projeto Myplate – e deve, no curto prazo, aderir ao desenho do prato, deixando a réplica da pirâmide no fundo do armário.

Embora defenda o valor pedagógico da medida, principalmente para o público jovem, Isa também é cautelosa ao projetar resultados com a mudança. Na visão da professora, estabelecer um prato colorido como padrão alimentar é muito pouco para combater o avanço da obesidade mundial.

“As pessoas não comem por saúde, comem os alimentos palatáveis, e os que têm mais sabor são as gorduras e carboidratos. A variedade, a oferta e o preço acessível de alimentos pouco nutritivos são os grandes vilões da obesidade mundial. O desenho ajuda no entendimento, mas não serve para conter o avanço da obesidade no mundo.”

Um atropelamento foi responsável pela mudança no comportamento alimentar de Rafael Freitas Santos, de 15 anos. Apaixonado por futebol, o garoto jogava bola com os amigos quase todos os dias da semana. Após o acidente, foi obrigado a deixar o esporte de lado, e incorporar uma vida mais caseira e sedentária.

Dentro de casa, e menos ativo, o menino passou a comer guloseimas e alimentar-se fora de hora. Hoje, já recuperado e de volta às peladas diárias, ele luta para recuperar a forma física.

Embora não se considere obeso - apenas gordinho -, Rafael sabe que mantém uma alimentação pouco adequada para sua saúde. A falta de conhecimento do valor dos alimentos, porém, dificulta o emagrecimento do menino. “Adoro carne cozida, bolacha recheada, e sanduíches. Sei que não são alimentos legais, mas não tenho muita noção de como montar um prato nutritivo e pouco calórico. Vou pela minha fome mesmo e tenho muita fome após praticar atividade física.”

Entre o desenho da pirâmide alimentar e o prato colorido, Rafael escolhe a segunda opção. Para o adolescente, o desenho do prato dá a medida do que ele deve comer durante o almoço e jantar. “É mais fácil de seguir, copiar. Acho até que posso fazer sozinho.”

A mesma escolha é feita por Kamila Barbosa Nunes, 13 anos. A garota reconhece que precisa ingerir legumes, vegetais e frutas, mas não sabe o que é uma refeição balanceada. “Acho que preciso perder uns 20 quilos em função do que eu como. Tomo muito refrigerante e adoro salgadinhos. Quero deixar de ser gorda, mas não sei muito bem como fazer.”

Com o colesterol alto, e acima do peso, Kamila chegou aos 81 quilos. Ao deparar-se com o desenho do prato, a menina arrisca em dizer que conseguirá seguir a proposta, desde que o nutricionista deixe claro qual a quantidade permitida em cada refeição, e dê exemplos do que são grãos e proteínas.

Fonte: IG

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