sábado, 5 de junho de 2010

Qual o consenso sobre o consumo do leite para crianças e adultos?

Todos têm a noção de que qualquer alimento benéfico, até mesmo essencial para a saúde, pode ser maléfico, dependendo de algumas circunstâncias. O leite de vaca é um importante componente da pirâmide alimentar que exemplifica esta situação. Seus benefícios são comumente ameaçados por efeitos adversos, provocados por quantidade excessiva, defeitos em sua composição nutricional ou reações adversas a algum componente por parte de algumas pessoas. Assim, o leite de vaca é um alimento importante, mas pode representar um perigo real para a saúde de lactentes (bebês no primeiro ano de vida), crianças maiores ou adultos. LACTENTES - Há cinco anos a orientação é oficial por parte dos departamentos científicos de gastroenteologia e nutrologia da Sociedade Brasileira de Pediatria: não é recomendada, no primeiro ano de vida, a oferta de leite de vaca, integral ou desnatado, e seus derivados (queijos, iogurtes, pudins).

Na Europa e América do Norte esta orientação pediátrica iniciou 20 anos antes. As razões para esta orientação radical são complexas e vieram a partir de conhecimentos científicos que hoje estão bem consolidados.

Em primeiro lugar, todos sabem que até pelo menos os dois anos de idade o leite materno é o alimento ideal. Para os 80% de lactentes brasileiros que recebem outro tipo de leite antes de completar um ano de idade a recomendação da Sociedade Brasileira de Pediatria é a de que seja oferecida uma fórmula infantil, industrializada. Para os leigos e para os médicos não especializados em saúde da criança esta pode parecer uma diretriz bizarra, ou extravagante, e por isto é importante que sejam divulgadas, ao menos de modo simplificado, as suas razões:

1) o leite de vaca possui composição muito distinta em relação ao leite humano, com deficiência em diversos micro ou macronutrientes essenciais para lactentes humanos e quantidades perigosamente altas de sal, alguns minerais e proteínas;
2) é destituído de uma série de ingredientes presentes no leite materno que previnem doenças alérgicas e infecciosas;
3) o excesso de sódio, cloro, cálcio e caseína significa uma sobrecarga para os rins, o que aumenta a chance de ocorrer desidratação diante de diarréia ou quadro febril;

4) a chance de anemia é três vezes maior do que com o leite humano, pois o leite de vaca promove má absorção de ferro, além de perda oculta de sangue pelo intestino em quantidade significativa, por razões desconhecidas;
5) o desenvolvimento neurológico (motor e visual) é um pouco comprometido, pela deficiência no leite de vaca de gorduras essenciais para a mielinização do sistema nervoso. E ainda há outros problemas, não citados nos itens acima. As fórmulas infantis, produzidas pela indústria a partir do leite de vaca, corrigem com êxito diversos defeitos que tornam o leite de vaca impróprio para lactentes. Não substituem o leite materno em qualidade, mas sua composição permite uma nutrição infantil com bastante segurança.

Por motivos econômicos os departamentos de nutrologia e gastroenterologia da Sociedade Brasileira de Pediatria atrasaram em 20 anos as orientações realizadas na Europa e América do Norte. A fórmula infantil pode custar até 25% de um salário mínimo por mês, pois o leite corresponde a 30 a 100% da dieta de um lactente, conforme a idade, enquanto o leite de vaca integral custa até 10% de um salário mínimo. Assim, o leite de vaca integral e seus derivados sempre foram de uso popular em toda a América Latina.

Esta é uma das razões de a deficiência de ferro ocorrer em 80% das crianças brasileiras nos primeiros dois anos de vida (40% com anemia), enquanto nos países desenvolvidos esta deficiência ocorre somente em 9% das crianças de mesma idade (3% com anemia). Esta é a maior diferença nutricional entre Brasil e países desenvolvidos, uma diferença tão grande que parece inacreditável, e a maneira de alimentar os lactentes brasileiros é sua principal causa.

CRIANÇAS GRANDES E ADULTOS

Nas demais faixas etárias o leite continua sendo uma ótima fonte de proteína animal, e uma fonte quase insubstituível de cálcio. Um dos problemas do leite de vaca é relacionado à quantidade excessiva, pois todos sabem que, em excesso, até mesmo a água faz mal. Algumas crianças apreciam demais o leite e ingerem quantidades grandes. Isto pode levar a um desequilíbrio na distribuição dos demais grupos de alimentos, pois a criança se sacia com o leite e derivados e deixa de ingerir os demais tipos de alimentos. Este é um erro alimentar freqüente em pré-escolares, e seria facilmente evitado com um pouco de bom senso por parte dos pais e imposição do limite adequado. Deveria ser de conhecimento popular que o leite de vaca, após os 18 meses de idade, não deve ultrapassar meio litro por dia.

Em adolescentes e adultos é mais prevalente a incapacidade de ingerir boa quantidade de leite. Em muitos casos o fator limitante é o gosto, pois há os que não apreciem o sabor do leite e derivados. Em outros tantos a limitação está na incapacidade de digerir e absorver o açúcar do leite, a lactose. A intolerância à lactose faz com que não poucas pessoas sintam desconforto abdominal (distensão, cólica, gases, diarréia) quando ultrapassam certa quantidade de leite. Sua prevalência varia com a etnia, estando em torno de 30% dos adultos no Brasil, e em mais de 60% dos adultos nos países andinos da América do Sul.

Estas limitações, intolerância ao sabor do leite, ou intolerância à lactose, justificam o fato de que dois terços das adolescentes meninas e um terço dos adolescentes meninos ingiram o cálcio abaixo da quantidade mínima recomendada, o que vem ocorrendo no Brasil e nos países desenvolvidos. Para os adolescentes isto representa um prejuízo na formação da massa óssea, e para os adultos uma redução mais rápida da densidade dos ossos.

Há outros transtornos causados pelo leite de vaca. Um deles é a constipação intestinal induzida por leite. Outro é a alergia à proteína do leite de vaca, com vários tipos de manifestações possíveis. Quando a alergia ao leite de vaca ocorre em lactentes, isto gera um custo elevado para a família, pois são bebês que já não dispõem do leite materno, e as fórmulas especiais para estas situações representam o custo de 0,7 a 4 salários mínimos por mês. Este é um bom motivo para que as mães pensem muito bem antes de desmamar seus filhos, pois a alergia ao leite de vaca ocorre em 5% dos bebês.

O leite de vaca é certamente um alimento benéfico para crianças e adultos que toleram esta fonte de alimentar, mas seu consumo é limitado pelo gosto e pela intolerância que muitas pessoas possuem aos seus componentes. Nesses casos é sempre um desafio suplementar o cálcio necessário, pois o leite de cabra confere as mesmas dificuldades do leite de vaca, e as fontes alternativas de cálcio dificilmente seriam ingeridas em quantidade suficiente (sardinha, brócolis, couve, ostras cruas, tofu). Para os lactentes a fonte de leite passa a ser uma questão ainda mais crucial. O

aleitamento materno é a melhor opção, salvo as raríssimas situações em que é contra-indicado. Infelizmente, a maioria dos bebês recebe outro tipo de leite antes de completar um ano de vida. Nesses casos, passa a ser fundamental a torcida para que a família disponha de recursos para bancar uma fórmula infantil, e também para que não ocorra nenhuma das formas de intolerância ao leite de vaca.

Aristides Schier da Cruz: Pediatra e Gastroenterologista Pediátrico; Professor do Curso de Medicina da Faculdade Evangélica do Paraná; Presidente da Sociedade Paranaense de Pediatria
Atualizado em ( 10-Out-2008 )

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